PROFUNDO COMO UM PÍRES


Vivemos atualmente uma cultura fast food.
A humanidade se viciou em consumir o mundo com pressa, numa velocidade indigerível, seja na alimentação ou no consumo de informação, sejam assuntos profissionais, filosóficos, espirituais, políticos, sócio culturais, inclusive os mais nocivos e banais.

Se tornou comum, encontrar pessoas com uma superficialidade tão profunda que se mergulharem num pires, se afogam no mar da ignorância.
Conhecem tão pouco de si mesmo que adoram julgar tudo ao redor.

Desconhecem a própria consciência e se perdem no próprio umbigo. Tentam explicar o mundo com base no próprio reflexo distorcido que vislumbram na superfície do pires.

Para aqueles que já fizeram alguns mergulhos mais profundos e se depararam com suas sombras, reconhecendo algumas de suas máscaras e personagens, fica mais fácil diferenciar aquilo que é, daquilo que parece e mesmo assim ainda se confundem.

O autoconhecimento exige mergulhos constantes, muitas vezes em apneia. 
Mas aqueles que não conseguem atravessar além do reflexo superficial e distorcido que admiram no espelho, se perdem facilmente naquilo que parece, achando, que é.


Muitos conhecimentos, nos chegam hoje intuitivamente, resultado de vivências de outras vidas, mas isto se reflete na consciência de cada indivíduo, em suas ações e nas suas relações com o mundo e não em achismos ou julgamentos superficiais, muito menos nos personagens que criam para se apresentarem para a sociedade e em suas mídias.

Aquele que consegue enxergar em si, seja no presente ou no passado, tudo aquilo que aponta no outro, tem a responsabilidade de não se perder mais nestes labirintos de espelhos, projeções e sombras.

Mesmo ainda tendo defeitos a serem corrigidos, e todos temos, é seu dever compartilhar suas percepções, para que possam contribuir com aqueles que são menos atentos ao próprio mundo interior.

Porém, aqueles que já estão cegos e embriagados pelo ego, raramente serão capazes de perceber algo e demonstram isso com descrença, deboche, fanatismo, julgamentos, ofensas e até mesmo com violência.

O papel do marinheiro, que pratica apneia, que faz mergulhos constantes no vasto oceano do ser e que enxerga algo além da superfície, no horizonte da consciência, é o de avisar toda a embarcação, mesmo que alguns duvidem, debochem ou até mesmo tentem lhe desacreditar.

Na hora em que o barco atracar eles não terão como negar, exceto aqueles que por impaciência, desespero ou prepotência, se lançaram ao mar da ignorância que é muito profundo, fácil de se perder e de se afogar, mas que mesmo assim se esconde atras do reflexo distorcido, na superfície de um pires.

Enquanto não olharmos para dentro e corrigirmos os defeitos do mundo em nós mesmos, vai faltar dedo pra apontar o defeito alheio e sobrar labirintos de espelhos, sombras, projeções e pires, para nos perdermos e nos afogarmos em nossos egos e ismos.

 

RPM ECOSSS
Lua crescente - Fevereiro - Verão 2023



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