REALIDADES DISTORCIDAS


Quantas vezes durante a vida, tivemos a oportunidade de sentir um estado de plenitude e compreensão do momento presente sem que estivéssemos sob a influência de nenhum estimulo externo?

Você consegue se lembrar de quantos momentos de real alegria e paz você pode viver simplesmente por estar respirando e contemplando alguma manifestação da natureza ou apenas presenciando o sorriso e a alegria sincera de uma criança?

Imagino que para se lembrar dos momentos de raiva e tristeza seja muito mais fácil não?

Agora observe quantas vezes você precisou de uma bebida, um medicamento, um cigarro, uma droga ou alguma medicina da floresta para induzir uma certa paz, tranquilidade ou um certo estado alterado de consciência, seja para aliviar as tensões da vida ou para tentar pensar melhor e encontrar respostas para alguns questionamentos.

Quanto mais buscamos fora, uma forma de lidar com todas as confusões que alimentamos em nosso interior, mais diminuímos nossa real capacidade de lidar com isso por conta própria.
E sim, quando não temos força nas pernas para andar precisamos de muletas, mas precisamos fazer fisioterapia também e fortalecer nossas pernas para darmos conta por  nós mesmos, sem nos algemarmos a algo ou alguém, pois isso vale também para relacionamentos de dependência emocional, inclusive crenças e doutrinas que aprisionam nossas mentes e tornam nossas consciências dependentes de um apoio ou salvador externo, algo que venha resolver os problemas que nós mesmos criamos.

No começo, ter um apoio externo é importante, mas chega uma hora em que aquilo que contribui para nos libertar de algum estado de sofrimento começa a nos aprisionar num outro estado e na grande maioria das vezes, não passam de ilusões que distorcem a realidade e nos mantem alienados.

Tudo que mexe com nossas emoções gera uma química em nosso interior e nos viciamos nestas químicas também e o tempo que passamos alimentando estes vícios, simplesmente podem destruir a nossa capacidade de discernirmos entre aquilo que é realidade e aquilo que é uma crença ilusória cultivada em nosso interior, uma distorção da realidade que nos impede de perceber o que é o bem e o que é o mal.

Não se trata de um conceito moral, acredito que você tem liberdade para fazer aquilo que achar melhor da sua vida, contanto que isso não afete a vida de outros, direta ou indiretamente, mas quando utilizamos o argumento da liberdade para alimentar nossos desejos e vícios egoístas, estamos simplesmente dizendo, “esta prisão é minha e eu tenho o direito de me trancar nela e chamar isso do que eu quiser, inclusive de liberdade e de lutar e combater todos aqueles que queiram destruir meu castelo de areia”.

Na maioria das vezes, se não em todas, temos as chaves nas mãos e nos trancamos em nossos universos acusando o mundo de nos aprisionar, simplesmente por causa de uma visão distorcida da realidade, consequência desses vícios químicos, mentais e emocionais que nos colocam em um estado de vibração e sintonia espiritual com seres que se aproveitam e estimulam ainda mais estes vícios, pois isto os alimentam.

Se nascemos com potenciais e habilidade únicas, a real liberdade é desenvolvermos estes potenciais e habilidades, como na frase já bem conhecida “Conhecerás a árvore pelos seus frutos”.

Pare para observar a qualidade do que tem frutificado em sua vida, inclusive nesta que “só você” conhece e vive aí dentro.

Se construímos uma vida onde sempre precisamos de algo externo para relaxar e ficar bem, existe algo de errado, sem moralismo, mas estamos nos sabotando, é como sermos um carro de última geração e nos arrastarmos pela vida como se fossemos uma carroça, quando na verdade estamos andando como carroças e com uma mentalidade tão distorcida e iludida que nos faz acreditar que somos um carro de última geração.

Não nascemos para sermos menos do que realmente somos, nem mais, nós só precisamos nos conhecer o pouco suficiente para aprendermos a ser do nosso tamanho.

Tudo ao nosso redor de certa forma nos influencia, mas sempre temos o direito da escolha, exceto em regimes ditatoriais e vale lembrar que dependendo de nossas crenças, podemos ser nossos próprios ditadores.

Não somos vítimas se não de nós mesmos, pela nossa escolha de nos colocar neste lugar pois como dizia Raul em uma de suas canções, “É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”.

Não mudamos aquilo que chega até nós, mas mudamos como reagimos a isto, ou melhor, como observamos e agimos.

A consciência humana tem um potencial que ainda desconhecemos, embora muitos luminares, sábios e místicos do passado já tenham nos deixado um legado de ensinamentos, mas gostamos de seguir pelo caminho mais fácil.

Pois bem, precisamos tomar consciência de uma coisa, o caminho mais fácil normalmente não é o caminho, mas sim o desvio.

Quem vive no campo sabe que é preciso preparar a terra antes de plantar, sabe que em certas épocas o clima ou determinados insetos e animais podem destruir suas plantações, então é preciso cuidar, conhecer algum tipo de tecnologia ou produto que não contamine a natureza nem o alimento, mas que impeça estes insetos ou animais de destruírem suas plantações e este tipo de cuidado tem custos e dá trabalho.

Mas quem vive em uma cultura que consome tudo em shopping center, supermercados e pela internet, simplesmente desconhecem essa realidade e quando tentam falar destes assuntos, romantizam tanto que parecem estar falando de uma realidade paralela, inclusive muita gente que busca uma vida melhor no campo, leva todos os vícios da cidade junto ou simplesmente não dão conta e sofrem muito até conseguirem se ajustar aos ciclos naturais, quando não desistem e voltam para a cidade.

Este trabalho pode ser divertido ou chato, consciente e nutritivo ou simplesmente uma obrigação entediante, um tipo de prisão e isso depende de nossa consciência, de como escolhemos viver a vida e lidar com seus desafios.

Nada cai do céu, exceto a chuva que inclusive é muito importante para a plantação, mas as vezes nem chuva cai e mesmo assim a plantação precisa ser regada e aí, mais trabalho a ser feito.
Toda semente brota da terra, então ou aprendemos a plantar e cultivar aquilo que queremos colher ou nos arriscamos a tentar ser espertos achando que podemos passar a perna nos outros e na lei de ação e reação, ao invés de cultivarmos a lucidez e aprendermos a ser despertos.

Ao nos aproximarmos da natureza, passamos a compreender e a viver estes ciclos, contribuindo com eles e uma verdadeira transformação começa a acontecer em nosso interior, começamos a enxergar a vida com mais clareza, percebendo a sua simplicidade, e entenda por simplicidade a ausência da complexidade e não do trabalho, embora ao removermos a complexidade da vida, diminuímos e muito o trabalho, embora esta complexidade esteja apenas em nossas crenças e ilusões e não na vida realmente.

Quando isso acontece simplesmente percebemos que aquilo que antes libertava, já vinha a muito tempo aprisionando, assim como aquilo que um dia já foi muleta e nos ajudava a andar, virou âncora nos fazendo andar em círculos sem sair do lugar, e que, simplesmente não existe nenhum estado de consciência superior ou melhor do que estar com o corpo e a mente sãos, livres de qualquer tipo de estímulo ou entorpecimento e em seu pleno potencial de atenção, saúde, consciência, presença e ação.

Tudo isso acontece quando nos nutrimos realmente, cultivando uma alimentação mais saudável e natural, uma respiração consciente, contato com a natureza, atividade espiritual e contemplativa, arte e criatividade, atividade física regular, seja academia, yoga, tai chi ou caminhadas, aprendendo também a cultivar uma vida mais lúdica, leve e divertida, sem com isso se tornar irresponsável.

Não precisamos de nada, que já não nos tenha sido dado pela criação, para sermos alegres, saudáveis e conscientes, e é só quando abandonamos todos os vícios e alegorias que a vida nos oferece a todo instante através das técnicas mais revolucionarias, mirabolantes e visionárias desse marketing da prosperidade techno espiritual da nova era que simplesmente não te ensinam a ser quem você é, mas te vendem novas prisões belíssimas repleta de tudo aquilo que seu ego deseja, simplesmente trocando uma cela com uma decoração ultrapassada por uma alegoria mais atualizada ao conceito eco cyber showmanico visionário psicodélico transcendental da nova era, do jeitinho que você quiser e tudo pago com seu cartão de crédito cármico em até 12 mil vidas, com juros e acúmulos cármicos, mas fique tranquilo, temos a eternidade pela frente e esse “investimento” vai te garantir muitos giros pela roda do “samsara”, hora contemplando a paisagem por cima, hora rastejando cegamente por baixo.

Sinto em lhe informar, mas a vida não é o que você quer, ela é aquilo que você é capaz de ser, mesmo que na maioria das vezes aquilo que você pensa ser é apenas mais um dos momentos transitórios em que se “está”.
Ser e estar são coisas diferentes, um é transitório e tem a ver com o seu querer e seus desejos, o outro é permanente e transcende qualquer querer ou desejo.

Você só pode ser quem você é, e não aquilo que você quer ser, mas para conhecer esta diferença precisa se observar um pouco mais, se conhecer melhor, silenciar e se observar, por dentro e por fora.

Às vezes sua vida está dando errado apenas porque você comprou tanta coisa com seu cartão de crédito cármico e se embaralhou tanto para pagar estas prestações que simplesmente não conseguiu parar tudo, silenciar, se conhecer e aprender a ser realmente quem é você.

Portanto use as muletas que forem necessárias para se firmar, mas faça a fisioterapia consciencial também, para aprender a andar com as próprias pernas e chegar ao final desta jornada com o menor número de bagagens, âncoras e algemas possíveis.

Chegamos nessa vida sem nada, e seria interessante irmos embora sem nada também, pois o que é da matéria fica na terra, mas o que levamos na mente e em nossos corações podem nos trazer algumas complicações ao passar pela alfandega espiritual, tornando este processo um tanto desagradável, a consciência só precisa de clareza para seguir sua jornada livre de desejos e apegos, apenas sendo quem se é e seguindo adiante para a próxima etapa da existência.

 Aho Mitakuye Oyasin!

RPM ECOSSS

Lua minguante – outubro – Primavera de 2023

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

SUCESSO NO FRACASSO

Atrás dos olhos

TEMPOS DE TRANSIÇÃO